As montadoras instaladas no Brasil estão se mobilizando para evitar a prorrogação dos incentivos fiscais à importação de peças utilizadas em processos CKD (Complete Knock Down) e SKD (Semi Knock Down). Essa resistência ocorre no momento em que o prazo de seis meses, concedido pelo governo federal em julho de 2023, chega ao fim em janeiro de 2024.
Segundo fontes do setor, a estratégia das fabricantes visa reforçar a necessidade de interromper o benefício, que foi uma medida temporária para estimular produção local e montagem de veículos por meio de kits importados. A preocupação maior é que a continuidade do benefício possa favorecer automóveis de maior volume, prejudicando a indústria nacional de componentes e as unidades produtivas locais.
De acordo com o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet, embora não haja uma decisão definitiva, há uma forte movimentação política e empresarial direcionada a evitar uma possível extensão do incentivo. Em sua última coletiva, Calvet afirmou que a entidade defende a manutenção do conteúdo local e não apoia a ampliação do benefício para produções em grande escala.
Além da Anfavea, diversas federações estaduais e o Sindipeças apoiam a posição contrária à ampliação dos incentivos, alertando para o impacto econômico que a continuidade do benefício pode acarretar. Um levantamento da própria associação estima que, se mantido o incentivo, o setor pode sofrer perdas de aproximadamente R$ 129 bilhões, incluindo redução na compra de peças locais e queda na arrecadação fiscal, além de mais de 69 mil empregos diretos e indiretos.
Historicamente, os incentivos fiscais às importações de componentes tinham como objetivo fortalecer a indústria nacional, mas sua prorrogação em diferentes momentos sempre gerou debates sobre o seu real impacto na competitividade e na soberania do setor produtivo. Com o avanço de marcas chinesas no mercado brasileiro, como BYD, GWM, Leapmotor e outras, o controle sobre esse benefício tornou-se elemento central nas estratégias de proteção às empresas locais.
Por ora, o horizonte permanece incerto. O setor acompanha atento os movimentos do governo e das montadoras, que já planejam seus próximos passos. Com o cenário de troca de peças e interesses em jogo, o mês de fevereiro será decisivo para determinar se os incentivos serão renovados ou definitivamente eliminados, impactando a configuração da cadeia produtiva de veículos no Brasil.