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Saiba o que montadoras de veículos e governo conversaram em reunião

Publicado em 10/05/2022

No início de maio, as montadoras de veículos fizeram reunião inédita com o Governo Federal. Conforme adiantado por Automotive Business, foi a primeira vez em 66 anos de história, que a Anfavea, associação que representa os fabricantes de veículos instalados no Brasil, realizou a cerimônia de posse de um novo presidente em Brasília (DF). O evento apresentou Márcio de Lima Leite como nova liderança da organização, além da nova diretoria. De quebra, o evento rendeu uma reunião com o ministro da Economia, Paulo Guedes, com direito a um breve aceno do presidente Jair Bolsonaro.

A reunião foi um primeiro passo da agenda de Leite para melhorar a competitividade do segmento e foi marcada por pedidos de urgência, por parte das fabricantes, e de paciência, do lado do Governo Federal.

O encontro contou com a participação de 16 presidentes das montadoras instaladas no Brasil. Segundo fonte da própria Anfavea que participou do evento, a iniciativa de investir em uma cerimônia em Brasília, inicialmente questionada internamente na entidade, "foi uma decisão muito acertada, que contribuiu para melhorar o trânsito da indústria automotiva no governo, aprimorar o relacionamento com a imprensa e o poder público".

A seguir, veja os principais temas debatidos.

1- Prazer, indústria automotiva
No início do governo Jair Bolsonaro, o setor automotivo encontrou dificuldade de interlocução com o governo federal. Para reverter esse cenário, as fabricantes fizeram questão de apresentar na reunião a importância do segmento para a economia e a sociedade brasileira.

A Anfavea mostrou dados a respeito da produção nacional de veículos, a participação de 20% do segmento no Produto Interno Bruto (PIB) industrial, e de como há uma série de entraves à competitividade que impedem neste momento uma retomada efetiva da produção de veículos no país.

De acordo com outro interlocutor da indústria que participou do encontro, as demandas foram ouvidas pelo ministro e houve concordância acerca dos pontos apresentados. Em contrapartida, Guedes disse que o momento impõe algumas barreiras aos pleitos da indústria, principalmente àquele que trata da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

2- Estratégia acertada da Anfavea
Além de melhorar o entendimento do governo sobre a indústria automotiva, a reunião foi capaz de abrir portas difíceis em Brasília, diz uma das fontes. "Além do Guedes, outros dois ministros participaram, tivemos o poder legislativo, de quem somos distantes, e também o segundo e o terceiro escalão do governo, que é com quem de fato negociamos", diz.

A fonte cita a participação dos ministros Bento Albuquerque (Minas e Energia) e Joaquim Leite (Meio Ambiente), de Rodrigo Pacheco, presidente do Congresso, de Marcelo Ramos, vice-presidente da Câmara dos Deputados, e de órgãos como a Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito).

3- IPI menor é ambição improvável
O governo já sinalizou que pretende eliminar o IPI e, no começo de março, reduziu o tributo em 25% para uma série de segmentos. Para carros, no entanto, a alíquota só caiu 18,5%. Depois, já no fim de abril, a diminuição do imposto foi ampliada para 35%, mas a medida só envolve picapes e furgões, frustrando as expectativas das fabricantes de automóveis.

Segundo a fonte, o governo apontou que, dentre as barreiras a um corte maior no imposto, estão os pareceres da equipe técnica do ministério que mostram certa inviabilidade em torno da medida -- não haveria margem para reduzir a arrecadação do tributo sem que isso afetasse negativamente as contas da união. Está também na lista uma eventual rejeição à medida em parte do governo, que argumenta que as montadoras já possuem benefícios demais. Por causa disso, portanto, seria necessária a paciência.

4- Boa vontade existe, mas a paciência é limitada
Apesar do bom relacionamento que a indústria automotiva quer construir com o governo, a Anfavea frisou que paciência é algo que o segmento aparenta já não ter. Marcio de Lima Leite, novo presidente da associação, frisou que a inflação e a taxa de juros em alta, além da corrosão do poder de compra do brasileiro, são fatores que hoje tornam mais complexa as vendas de automóveis, por exemplo. O drama logístico brasileiro, que foi acentuado pela crise global dos semicondutores, derrubou a produção nacional. Tudo isso, por sua vez, demanda a urgência.

Uma das fontes que estavam no encontro afirmou que o apelo foi bem recebido, gerando compromisso de Guedes com atenção à redução do IPI. Apesar da sinalização, no entanto, a própria indústria reconhece ser bastante improvável que a boa vontade vire ação nesse caso. "Internamente, no governo, dizem que os benefícios à indústria automotiva já chegaram ao limite, que o setor é muito protegido até mesmo pelo imposto de importação de 35% a veículos produzidos fora do Mercosul", aponta.

5- Abertura de portas à importação de novas tecnologias
Se, por um lado, o imposto de 35% a importação de veículos acabados não é motivo de discussão, por outro há interesse da indústria na desoneração de novas tecnologias que ainda não têm produção legal, como aquelas ligadas a veículos elétricos.

Segundo fonte, a Anfavea deixou claro que manter a tributação elevada não é o melhor caminho para estimular a produção local dessas soluções, já que a decisão de fabricar certos produtos no Brasil depende muito mais do potencial de vendas e interesse do consumidor. Assim, o pedido da associação é manter alíquotas baixas para que as novas tecnologias cheguem ao Brasil e, gradativamente, gerem demanda para possíveis nacionalizações.

6- Cadeia automotiva nacional pode ganhar importância
Apesar das incertezas, no entanto, os representantes das fabricantes de veículos não saíram do encontro sem algo em que acreditar. Segundo a fonte ouvida pela reportagem, o ministro da Economia esteve em contato com investidores estrangeiros tratando de assuntos que dizem respeito aos interesses do setor automotivo nacional.

Os investidores teriam mencionado que há um movimento de reorganização da indústria global no sentido de realocar cadeias de suprimentos em regiões consideradas seguras, ou seja, menos exposta aos conflitos políticos, aos riscos jurídicos e intempéries naturais, numa espécie de resposta ao quadro oferecido hoje pelo lado oriental do planeta. O Brasil, segundo Paulo Guedes, seria um desses portos seguros.

Desde a guerra comercial sino-americana em 2018, alguns países desenvolvidos vêm pressionando para reorientar sua produção global longe da China. Um relatório do BNP Paribas, divulgado em agosto do ano passado, indicou que de fato existe este movimento, mas ainda dentro da Ásia. Em um artigo para a Forbes, Doug Donahue, membro do conselho do banco, argumentou que grandes companhias olham fornecedores na Índia, Vietnã e Romênia.

Pelas contas da Oica, a organização mundial dos fabricantes de veículos automotores, a produção mundial caiu 16% no comparativo 2021-2020 por causa dos efeitos da pandemia e da crise dos semicondutores, acentuando ainda mais um perfil que já era de queda de produção em anos anteriores. Os reflexos do conflito Ucrânia-Rússia na indústria, apontam dados da LMC Automotive, podem ceifar 400 mil unidades da produção global deste ano.

7- Questões estruturais desafiam diplomacia entre Anfavea e governo
Para Antonio Jorge Martins, especialista gestão estratégica de empresas automotivas da FGV, o Brasil ainda está longe de se mostrar como o porto seguro descrito pelos investidores ouvidos por Paulo Guedes, ainda que exista potencial. "Temos uma indústria forte, com alto nível de desenvolvimento tecnológico, que investiu pesado no país, com grande mercado consumidor e reservas de matéria-prima, mas que esbarra em questões estruturais para decolar, como por exemplo a questão fiscal".

Vale lembrar que o mundo automotivo se movimenta para ser majoritariamente elétrico no futuro, e que uma hipotética transformação do Brasil em uma base de fornecimento global, demandaria profundas mudanças, a começar pelas linhas de produção e base de fornecedores locais que, por ora, foram concebidos para construir veículos com motor a combustão.

Haveria ainda muito a se caminhar nesse sentido e o próprio presidente da Anfavea, Marcio de Lima Leite, tratou de frisar em seu primeiro discurso à frente da Anfavea que o Brasil tem de olhar para a sua base de fornecedores:

"As montadoras precisam ter um olhar com responsabilidade para localizar [a produção de componentes]. Não podemos ficar refém de países ou de fornecedores. Temos que trazer esta tecnologia para dentro do país. Dentro de um diagnóstico feito pela Anfavea, cada segmento tem a sua criticidade, mas o país não pode se ver refém de desabastecimento de determinados itens", disse o executivo.

De qualquer forma o ambiente é de articulação conjunta entre as montadoras e o governo federal. A harmonia é tanta que o ministro Paulo Guedes, em reunião anterior à marcada com os CEOs, chegou a convidar o ex-presidente da Anfavea e diretor de relações institucionais da Mercedes-Benz, Luiz Carlos Moraes, para ocupar um cargo em Brasília ligado ao desenvolvimento de políticas públicas de industrialização. O convite, segundo a fonte, foi negado.
Saiba o que montadoras de veículos e governo conversaram em reunião

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Fonte: Automotive Business

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